Cada segundo uma sentença. As cabeças já não importam mais!

Por Manoella Back                                                                                                       

Bem marcado como os tic-tacs de relógio. 19:45! é sobre tempo. E sobre mais todas as coisas que atravessam ele. É o tempo de Chronos, de Albert Einstein, o vira-tempo da série Harry Potter, da temporalidade de Heindegger“. 19h45!” (Miúda Cia. – CEFART) propicia refletir sobre a efemeridade do dia-a-dia e das relações humanas. No espetáculo sob o formato arena, laranjas estavam dispostas sobre o palco, o que influenciava a movimentação dos atores e do protagonista que entrava e saia de cena com uma bicicleta.

O público se inquietou e parecia querer fugir da confusão. Daquele tempo que não passava ou que passava. Ou o relógio já era outro. Já era outro. Já se esvanecia. Mas, os 95 minutos de espetáculo não passaram tão rápido. Os fatos eram sobrepostos. Os relógios eram presentes. A sobreposição era a de tempo. A pressa é mesmo inimiga da perfeição mas, mesmo sem a pressa, incidentes acontecem.  Entre laranjas, noivas e motoristas salvaram se todos. Menos o tempo!

A própria Miúda Cia que se define como “núcleo, um conglomerado, um concentrado de pessoas, idéias e afetos em fluxo”, e se deixou bastante presente em 19:45!. Além de questionar o tempo, reflete sobre o acaso. Ou será que foi só uma coincidência?  Foi a fusão do físico com o não físico, confirmado posteriormente em debate pelos próprios atores da peça. Vários eventos isolados e perspectivas opostas. É a sincronicidade. Há a possibilidade de cálculos e mais cálculos. Quanto de energia é necessária para que encontros aconteçam? O espaço físico, a matéria, a energia, as emoções. Individuação, tempo e espaço.

Mas, com a vida contemporânea, é impossível não citar outros conceitos bastante visíveis na montagem vinda da terra do Pão de Queijo. A sociedade é líquida, incapaz de manter rigor, formatos e valores nas relações. Se desmancha no(s) ar(es). Zygmunt Bauman ainda afirma que o ser humano [pouco empático] da vida moderna é fruto desta modernidade líquida. Tudo flui. Tem um acidente. Um não ouvir, literalmente. Que embora nos lembrem tragédias contemporâneas, ainda é capaz de nos lembrar Vinícius de Moraes, já que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” Tudo flui.

E já que tudo flui e que para o pré-socrático Heráclito nenhuma corrente de água é igual a outra, é importante perceber que o homem é único com todas as suas particularidades. Estas sutilezas e organicidade nos corpos e olhares seguem presentes na direção de Rita Clemente, onde tudo é mutável. Nem toda corrente de água é igual. Não entramos duas vezes no mesmo rio. O pai da dialética também está presente nos diálogos, já que há contradição de ideias que levam a erros, desentendimentos e acertos.

O espetáculo ainda referencia a mobilidade urbana. Nossas ruas são as mesmas de tempos atrás, mas nossos tempos já são bem mais acelerados. As laranjas e complicações continuam sob os nossos pés. Mas convém perguntar: será que não está na hora de dar um basta em toda esta loucura cotidiana? Nossos relógios correm o risco de não dar conta de acertar os ponteiros no mesmo ritmo dos nossos dias, assim como nossos corações. Tende a piorar! As laranjas, se em algum momento do acaso, forem substituídas por ovos irão nos respingar em cada instante. Porém, já poetiza Caetano Veloso “De modo que o meu espírito, ganhe um brilho definido, tempo tempo tempo tempo, E eu espalhe benefícios, tempo tempo tempo tempo”. É sim, viver e dar um basta nas loucuras. Isto o espetáculo 19:45! Mostra da melhor maneira.

As fotos que compõe essa resenha são do fotografo Netun Lima e poderão ser vista na integra em: http://veraoarte.com.br/2017/galeria/%E2%80%8B1945-miuda-cia/. Qual todos os direitos estão reservados a Miúda Cia.